"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


31.3.13


Rota de colisão

De quem é esta pele
que cobre a minha mão
como uma luva?
Que vento é este
que sopra sem soprar
encrespando a sensível superfície?
Por fora a alheia casca
e a distância entre as duas
que me atropela.
Pensei entrar na velhice
por inteiro
como um barco
ou um cavalo.
Mas me surpreendo
jovem velha e madura
ao mesmo tempo.
E ainda aprendo a viver
enquanto avanço
na rota em cujo fim
a vida
colide com a morte.

Marina Colasanti 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

30.3.13


 
hoje a vida parou nada mais se move 
meu coração assim como o teu 
pulsa compassado

lá fora o tempo o mover das coisas
para dentro de nós o reter da vida

enquanto a temos paramos o tempo
estamos sós
só há viagem agora para dentro de nós

 Helen Drumond

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

29.3.13


Cor mutável

Olho três vezes a imagem no espelho. Nunca idêntica. O que muda é a cor. Não a dos olhos, a dos cabelos ou da pele. A cor de mim. Já não procuro identidade. Camaleão adaptável num labirinto sem saída. Chocando com as paredes em tons de arco-íris. Rasgando a pele a cada mudança.

  Alice Daniel

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28.3.13


 
Não, não é ainda a inquieta
luz de março
à proa de um sorriso,
nem a gloriosa ascensão do trigo,

a seda de uma andorinha roçando
o ombro nu,
o pequeno e solitário rio adormecido
na garganta;

não, nem o cheiro acidulado e bom
do corpo depois do amor,
pelas ruas a caminho do mar,
ou o despenhado silêncio

da pequena praça,
como um barco, o sorriso à proa;

não, é só um olhar.

 Eugénio de Andrade

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

27.3.13


A Concha 

Escondi-me numa concha, no fundo do mar,
mas esqueci-me em qual.

Cotidianamente desço às profundezas
e coo o mar por entre os dedos
a ver se dou por mim.
...

Quantas vezes fui diretamente a uma concha
dizendo: "Este sou eu".
Quando abria a concha
Estava vazia.

Marin Sorescu
(trad. Luciano Maia)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

26.3.13


simples assim

eu queria uma palavra
apenas uma

e meus olhos te mostrariam
dois sóis

(um em cada pupila)

por trás do inevitável arco-íris
eu te darei um sorriso

só isso
e já me clareava o dia

 Adrianna Coelho 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

25.3.13


Prefácio 

Tu não sabes quem eu sou.
  
E a vida é muito breve
para te contar do regresso.
 
Sou o princípio do nada
e sou o fim do começo.

 Manuela Amaral 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

24.3.13


Estranha sina

o que me cala a boca
e ensurdece os ouvidos 
é tudo o que não disse
e o que de mim foi omitido

o que me cega os olhos
e entorpece meus sentidos
é aquilo que não vi
e o que de mim se oculta

o que me paralisa
e imobiliza meu corpo
é a contenção do desejo
e a vontade de transpor limites

o que me entristece
e me faz  lamentar
é tudo aquilo que um dia quis
e não tive a coragem de viver

 Ianê Mello

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

23.3.13


Quando, não sei…

Há-de chegar o dia
em que a minha tristeza há-de acabar...
Tudo finda... renasce e recomeça...
E esta tristeza há-de ter fim!
E então minha alegria
há-de voltar!...

Só tenho medo
que, quando ela regressar
eu esteja tão cansada de viver,
que não chegue a festejar
esta ânsia enorme de vencer!...

Sim, porque da tristeza sempre fica
um jeito desolado...
Mas não! Eu hei-de ser alegre,
e endoidecer cá dentro
toda a amargura do passado!

Mas não tardes
a realidade
do meu sonho!...
Porque há quem morra de saudade
e dor!
E eu não sei se terei vida
que chegue
se a tua demora
for mais longa, meu amor!

 Judith Teixeira

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

22.3.13


Lugar 

É!... Hoje sinto que precisava
de uma praia deserta,
como só a vida pode ser
e de todo pôr-de-sol
que eu pudesse ter.
Perder meu olhar naquele
horizonte, repousar ali estes
olhos cansados,
dividir com o mar todas as
dúvidas e incertezas que
há muito tenho colecionado.

E ficar mesmo sem nada
entender.
Como tenho feito em todas
as tardes desta vida.

AC Rangel 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

21.3.13


Inspirei durante tanto tempo o aroma de um chá quente, feito de sonhos. Um vapor morno, respirado como um incenso e absorvido como um elixir. Uma nuvem branca, preenchida com as partículas revigorantes necessárias para ganhar energia a cada passo de um caminhar inconstante. Um chá encorpado, que dava vontade de olhar para o céu e percorrer o mundo de nuvem em nuvem. Mas hoje a vida entornou-me uma chávena do precioso líquido. No meu interior, um mesmo mantra repete-se agora em forma de interrogação: como poderei acreditar novamente?

  Ana

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

20.3.13


As virtudes dialogais

Dentro
de mim
há uma planta
que cresce
alegremente
que diz
bom dia
quando nos amamos
ao entardecer
e boa noite
quando florimos
à alvorada
uma árvore
que não está com o tempo
este tempo
a que chamamos
nosso.

Pedro Oom 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

19.3.13


Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adélia Prado 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

18.3.13


 
Deixei de ouvir-te.
E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste, mas
se encostar ao teu pulso, o meu ouvido,
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo
ou perdoar-lhe.

 Maria do Rosário Pedreira 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

17.3.13


Pequena prece

Pedi-te que partilhasses
pão
e sal comigo.
Assim aos domingos jamais tornaria a temer
o salgado.

Tu porém cantaste na tua solidão
obscuras incompreensíveis
notas.

Apenas te ouvia dizer
o corpo,
o corpo
(da alma casa)

 Marigo Alexopoulou

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

16.3.13


Gavetas & Guarda-chuvas

Gosto de guardar envelopes
com selos coloridos cantantes
trazendo vozes e livros alados
chegados de lugares distantes
contendo suspiros, pólens, palavras
ecos de almas de poetas singrantes...

Gosto de guarda-roupas antigos
porta-chapéus e baús violeta
casacos e cachecóis, cabideiros
cômodas, criados-mudos, gavetas
cheias de papéis, chaves, cheiros
cartas e asas azuis, borboletas...

Gosto de sombrinhas flutuantes
pensamentos fluidos, frágeis, viajantes
flanando por ruas molhadas, nuas flores
olhares líquidos, sonhos, pedras, dores
pétalas perdidas caídas nas calçadas
poças, passos, prazeres, pingos, amores...

 Ana Luisa Kaminski

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

15.3.13


Não estão 

Os pássaros não estão,
se esconderam no meu coração.

Hoje sou ninho.

  Humberto Ak'abal

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

14.3.13


Arte de amar 

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

 Manuel Bandeira

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

13.3.13


Confissão

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

Mario Quintana

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

12.3.13


A velha

Esculpida em silêncio,
sentada e sábia,
fita o horizonte da mágoa.

Ao seu lado, o mar murmura
as sílabas
do ocaso.

Ó beleza antiga e súbita:
sobre o seu ombro
o instante se debruça,
iluminado.

 Adriano Espínola

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

11.3.13


 A dor - tem um elemento de vazio -
Não se consegue lembrar
De quando começou - ou se houve
Um tempo em que não existiu -

Não tem futuro - para lá de si própria -
O seu infinito contém
O seu passado - iluminado para aperceber
Novas épocas - de dor.

 Emily Dickinson 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

10.3.13


Quisera

Quisera sonhar um sonho
destes coloridos
balões de ar.

Quisera sorrir um sorriso
destes largos
janela da alma.

Quisera brilhar os olhos
destes apaixonados
reflexos de amor.

O sonho voou
o sorriso fechou
opacos olhos.

Muda e esquecida
numa prisão escurecida
desterrada.

Quisera descortinar mundo novo
quisera fugir
... de mim...

Clau Assi

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

9.3.13


Das portas trancadas 

Doem-me as portas trancadas.
As que abanamos e não se conseguem abrir.
Das que se perderam as chaves.

As chaves das portas trancadas que não se conseguem abrir.

Penso nas portas trancadas da tua casa.
As chaves que se escondem e não mais aparecem
a porta do teu quarto que range sempre que a abres
ou quando se tosse uma réstia de vento.

A madeira sólida do teu quarto
os raios anelares das árvores
agora sem vida
trancam o teu quarto
conservando a resina que cola os meus cabelos à tua porta.

As unhas negras.
O sangue coagulado.
A dor.
O horror.

De como a tua porta se tranca trilhando os meus dedos de solidão.

Joana Serrado 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

8.3.13


 algumas velas
velam minhas sombras
companheiras
enquanto se desfazem
sós
em pós 
do resto de cada instante
ardente
breve
mas eterno

livre em nós

 Ana Paula Perissé

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

7.3.13


Não pensem que... 

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque os dias me açoitam
E as noites me agitam.
 
Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque lá fora o mundo se atropela
E agente anda aturdida.
 
Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque em Agosto choveu
E o mar estremeceu.
 
Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque os olhos do vento
Se esbugalharam contra os meus.
 
Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque o gaio deixou de cantar
E a seara não deu trigo maduro.
 
Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque ser amigo demora
E as palavras deixaram de ser sentidas.
 
Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque desacreditaram os poetas
E esqueceram as laranjas da madrugada.
 
Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque uma árvore morreu queimada
E a rosa murchou no umbral da tua casa.
 
Não pensem que vou desistir da vida.
Não pensem que vou desistir da vida.
Sobra-me o espanto e tanto atrevimento.

Maria José Areal

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

6.3.13


 
 Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo. Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la.

 Aqui me fico, por ora na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará. 

  Machado de Assis

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

5.3.13


Vermelho amargo 

 Dói. Dói muito. Dói pelo corpo inteiro. Principia nas unhas, passa pelos cabelos, contagia os ossos, penaliza a memória e se estende pela altura da pele. Nada fica sem dor. Também os olhos, que só armazenam as imagens do que já fora, doem. A dor vem de afastadas distâncias, sepultados tempos, inconvenientes lugares, inseguros futuros. Não se chora pelo amanhã. Só se salga a carne morta.

  Bartolomeu Campos de Queirós 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

4.3.13


carrego coisas pesadas e quase não mais flutuo. há tempos, navego sem encontrar portos pelo caminho. lugares onde se possa parar. descarregar as cargas amontoadas. atirar o que é sobra ao chão do cais. navego enquanto posso, sem conseguir me livrar da bagagem. das pedras dentro das malas. sabendo que a mudança foi com a embarcação e não com o mar. navego, sabendo que afundar é questão de tempo. 

  Eduardo Baszczyn 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

3.3.13


Podes ficar aqui?
Não vás embora.

Precisarei de mais alguns minutos,
horas, dias, semanas, meses, anos,
eternidades para te esquecer…

Fernando Pinto Do Amaral

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

2.3.13


A vida 

 A vida, sem nome, sem memória, estava sozinha. Tinha mãos, mas não tinha em quem tocar. Tinha boca, mas não tinha com quem falar. A vida era uma, e sendo uma era nenhuma. 

Então o desejo disparou sua flecha. E a flecha do desejo partiu a vida pela metade, e a vida tornou-se duas.

 As duas metades se encontraram e riram. Ao se ver, riam; e ao se tocar, também. 

  Eduardo Galeano 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

1.3.13


   Hoje (meu desejo de Aniversário)

Hoje eu quero estar em paz...

E se eu tiver que pensar
que seja o amor
a ocupar meu pensamento
Se eu tiver que falar
que sejam palavras de amor
a descrever o meu momento...

Porque hoje
eu quero estar em paz

e se eu tiver que chorar
que seja de alegria
se eu tiver que perder
que seja o medo da vida
e se eu tiver que sentir
que seja o amor que emana de você

Sim, hoje eu quero estar em paz

quero risos de contentamento
quero beijos delicados
ao sabor do vento
quero música suave
e se uma graça me for outorgada
que seja eu, para sempre, a sua amada...

Ariadna Garibaldi

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨