7.2.13


Que fazer com esse grito? 

 Sente que deve ser um grito. Rouco, fundo, carregando consigo todo o silêncio guardado. Mas da garganta seca nem um som se faz ouvir e o esgar do rosto quase parece um sorriso. Uma mordaça invisível impede palavras, gestos e, mais que tudo, aquele grito que lhe sobe à boca quando tudo à sua volta louva a vida.

 Aterroriza-a o passar dos dias porque o grito perde urgência, aninha-se como memória longínqua. De repente, numa qualquer manhã, sente no corpo suado a dor que do fundo da garganta lhe invade o sangue e a aperta sem dó. 

 Um dia tudo desaparecerá e o grito ficará bem no fundo, enterrado em camadas de lembranças velhas que só se tornam conscientes quando a angústia o impõe. Até lá, aperfeiçoa as máscaras que escondem a mordaça e que escolhe cuidadosamente em cada dia.

  Alice Daniel

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3 comentários:

  1. Belo demais para ser possível responder!

    Fico com o silêncio
    deste preto e branco
    e de toda a sua beleza!

    Maria Luísa

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  2. È melhor soltar muitas vezes o grito que se prende na garganta.

    Beijinhos

    Ana

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  3. O grito é a lavagem da alma....ficaremos roucos de gritar, mas imensamente limpos para viver.

    Beijinho

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