"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


31.12.12


Secreto 

Antes eu não sabia
porque é que se deve
- dia após dia –
andar sempre em frente
até como se diz
o corpo aguentar.
Agora sei.
Se vieres comigo
digo-te.

José Agustin Goytisolo

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

30.12.12


Calendária 

É difícil ser a gente, não é?
Com esta dor aprumada ao peito
Com tantos pés sem uma dança
E muita terra comidos nos olhos
E muita carne escondida na pele

É difícil isto e amanhã
Um corpo que cai para o futuro
Um desejo maior do que a vontade
E tantas flores que não são beijos
E tantos sonhos que não são dias

Nuno Camarneiro

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

29.12.12


   Logo atrás de ti 

Esta dor não passa quando adormeço
chora ao pé de mim
irremediável

alguém nos toca no ombro e
damos por nós mais sozinhos

o meu lugar na morte
é junto à janela
logo atrás de ti

Mário Rui de Oliveira

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

28.12.12


Subjugada 

Sou abrigo,
ininterrupto,
da solidão,
parceira cruel,
que se alimenta
dos ecos do nada,
sufocados em minh’alma.

 Clau Assi

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

27.12.12


 
Os lençóis foram lavados
da nossa essência conjunta – um composto,
não uma mistura; mas aqui ainda estão
esquecidos, o teu cachimbo e tabaco,
os teus livros abertos na minha mesa,
a tua voz a falar nos meus poemas.

 Fleur Adcock 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

26.12.12


Eu não quero ser velha sozinha... 

Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a

chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será – porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes – por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha

sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa –

se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.

 Maria do Rosário Pedreira

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

25.12.12


   Anúncio publicitário 

Procura-se companheira/o 
para relacionamento poético sério.
Apenas se exige que saiba dizer
que o surrealismo é coisa para
ter morrido no século XX.

David Teles Pereira

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

24.12.12


 
  Pássaros 

Sim, havia em mim
um bando de pássaros ávidos por voar
ficaram entretanto aprisionados
nunca conseguiram romper meu coração
e se libertarem
hoje eu sou uma gaiola de angústias sem asas.

 Marilda Soares 

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

23.12.12


Silêncio 

Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios se emudecem.

Otavio Paz

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

22.12.12


Ela acordou e viu que o dia não tinha amanhecido. Calçou os chinelos, comeu a sua dose matinal de cereais, vestiu-se sem tomar banho. Abriu a porta e deixou entrar o fumo negro que lá fora se acumulava. A noite desfez-se e inundou tudo, pensou. Voltou para a cama e esperou pacientemente que o fim do mundo passasse. 

  Miguel Cardina

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

21.12.12


As árvores estão noivas

A senhora Rosa e o seu filho Luís tiveram de deixar, para sempre, a sua casinha de aldeia. Foi num dia destes de Primavera em que, no dizer da senhora Rosa, o tempo estava "macio como seda". Aliás, ela nunca dizia: "Está bom tempo" ou está "mau tempo", mas sim: "O tempo está a ser brandinho" quando, pela manhã,o Sol espreitava, tímido, entre as nuvens, ou: "O tempo desabafa", quando chovia a potes. E sempre que dizia "O tempo está macio como seda",isso significava que não havia calor a mais, a claridade da luz não feria os olhos e a aragem soprava leve como o fru-fru das sedas. E quando as árvores de fruto se cobriam abundantemente de flores brancas e rosas, ela avisava: "Estão noivas!" E depois, quando se vergavam sob o peso dos frutos ainda verdes, interrogava: "Como é que estas pobres árvores vão aguentar com tanta filharada?"

 Era assim a senhora Rosa, mãe de Luís.

  Ilse Losa

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

20.12.12


 
Sinto o crepúsculo nas minhas mãos. Chega através do loureiro doente. Não quero pensar, nem ser amado, nem ser feliz, nem recordar.

Só quero sentir esta luz nas minhas mãos

e desconhecer todos os rostos e que as canções deixem de pesar no meu coração

e que os pássaros passem diante dos meus olhos e eu não note que se foram.

 Antonio Gamoneda

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

19.12.12


Tempo 

Temperatura em elevação,
nuvens isoladas de ausência.
Nebulosidades aumentam
no decorrer do período.
Ao pôr-do-sol,
pancadas de saudade.

Edival Perrini

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

18.12.12



  Água e mágoa 

A beleza,
a mim, me dói.
O belo se quer Deus.

E o corpo
é um antecipado adeus.

Mia Couto

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

17.12.12


  ... à mesa sentada. Observo as cadeiras. É final de ano... A casa não mudou. Mudei. Talvez a maior alteração: a interna. Vejo o porta-retrato-amarelado jovial. O olhar está cansado e nublado. Ouço fogos de artifícios comemorando... Pergunto para mim o que celebrarei nesta sala? O piano silencia-se. Abro a janela para dar evasão ao sufoco. Debruço-me no meu diário. Necessito escrever uma bela história sobre um passado recheado de recordações neste momento. A memória falha, mas a saudade lembra. Sentada à mesa. Contemplo um devaneio. Afinal, é final de ano e a casa não está mais cheia... está habitada de móveis e vazia de queridos. O barulho interno é ensurdecedor. Inquieto-me. Pergunto para o tempo se terei mais tempo para gastar pela vida. Aguardo a resposta. Deixo a porta aberta. 

  Renata Carone Sborgia 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

16.12.12


 
  A bicicleta amarela 

Quando criança, eu tinha uma bicicleta amarela,
não amarela de nascença,
meu pai que pintou...
Ele dizia:
"pra combinar com a tua alegria"
pois todas as coisas belas,
eram amarelas,
o canário, o caju, a manga rosa,
a luz do dia!!!
O ouro, o sol e a ventania...
Não sei que fim levou
a minha bicicleta amarela...

 Mariza Alencastro

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

15.12.12


Porta encostada 

Um dia tu fostes embora
sem me dar um só adeus
deixastes a porta na escora, 
um par de sapatos teus.

Fiquei pensando, pensando
na tua resolução:
Porque que tu foi embora 
saindo de pé no chão ?

Inda hoje o sapato tá lá
é a forma do teu pé
a porta inda tá encostada
pode voltar... se quiser. 

 Deusdeth Nunes 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

14.12.12


Pudim de pão

Não é preciso muito:
Uma tigela
(o fundo d'alma)

dois ou três ovos
leite, cravo e canela
(vozes e perfumes vagos)

açúcar, manteiga, fermento e pão velho
(lembranças e sabores amargos)

uma forma e um fogão
(sonhos desfeitos em segundos)

40 minutos de forno e está pronto

Com um copo de suco, engulo
minhas lágrimas condensadas
em pudim de pão.

 Asta Vonzodas

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

13.12.12


 
  Ainda espero

Eles pensam que sou uma louca rapariga
Sou nada !
Não passo de uma menina cansada da vida,
destinada a ser vista pelos olhos dos outros
como a mais cínica das criaturas.
Eu mesma cheguei a acreditar e a festejar 
essa tal façanha.
Mas nunca fui cortejada, nem amada.

Ainda espero ...

Venha cá, corajosamente, e me ama
Leva tudo de mim e não esqueça de sorrir
depois me afastarei sem dizer nada.
 
Cibele Camargo

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

12.12.12


19:40

o relógio da estação marcava
dezanove e quarenta

um alto e entroncado homem
sorria de um dos lados da linha

todos os dias

do outro sorria uma mulher
com os seus dezanove
e quarenta anos

a reter, os brincos da mulher
estridentes de silêncio

e as botas dele
invulgarmente mudas

a dilecção dela
eram homens pontuais

a dele mulheres
sorridentes ao silêncio

dia dezanove de um mês
invernoso
do ano de quarenta

de um lado da linha
não havia vislumbre
de mulher ou homem

e do outro
também não

Nuno Travanca

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

11.12.12


As muitas Marias de mim 

Olho-me no espelho
Onde está você,
Maria da Imaginação?
Vivo calçada de nuvens
ora opacas
ora translúcidas
Refugio-me
no reino das fadas
do tempo de menina
Ainda ouço o som
da caixinha de música
Recapitulo fantasmas
que arrastam correntes
lá... dentro de mim
Onde está você,
Maria da Lucidez?
Meus personagens
fundam comunidades
de Marias desgovernadas
algumas tristes,
outras felizes
outras contraditórias
Umas que rezam
outras que pecam
São almas desunidas
que se esbarram
se conflitam
deliram assim,
dentro de mim.

 Maria José Zanini Tauil 

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

10.12.12


 
 Para sempre me ficou esse abraço. Por via desse cingir de corpo minha vida se mudou. Depois desse abraço trocou-se, no mundo, o fora pelo dentro. Agora, é dentro que tenho pele. Agora, meus olhos se abrem apenas para as funduras da alma. Nesse reverso, a poeira da rua me suja é o coração. Vou perdendo noção de mim, vou desbrilhando. E se eu peço que ele regresse é para sua mão peroleira me descobrir ainda cintilosa por dentro. Todo este tempo me madreperolei, me enfeitei de lembrança. 

  Mia Couto

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

9.12.12


 
 quase sempre só. nem o corpo o sente quando a vida bate - a história começa onde o fio termina e a vida está por esse fio presa - já tarde lembro o teu rosto e tudo é feito de paz. como nos dias de outono quando me dizias que tudo passa - tudo passa - e eu sorria porque acreditava que passar era uma coisa tão boa quanto ficar. eu que não sabia o significado nem de uma nem de outra - talvez tenhas partido cedo demais para a morte. mas que importa isso. se tudo passa e pouco fica. e o que fica é a memória - com tempo a memória perde-se e o teu rosto só se descobre em fotografias. 

  Margarete 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

8.12.12


 
  A Saudade 

 Não deviamos ter saudades. De nada. Nem ninguém. Estou aqui sentada. Sem fazer nada. Tenho os olhos (bem) abertos. Os sentidos alerta. A razão a funcionar. E esta coisa. Esta coisa no peito. Tenho tantas saudades tuas que nem consigo respirar. Não devíamos ter saudades. De nada. Nem de ninguém. Não.

  Elisa

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

7.12.12


  Sinto como se tivessem roubado todo o meu ar e agora mal consigo olhar em volta, por que tudo está girando outra vez? Como levantar se tudo o que eu quero é me entregar a esse vazio infinito e a essa facilidade de adormecer sem deixar rastros? Já não consigo me lembrar de como era doce o gosto da sua voz e de como me fazia suspirar baixinho, sorrir e ter aquela vontade louca de cantarolar. Mas me lembro vagamente de como me deixou sozinha outra vez, como descumpriu a promessa de nunca soltar minha mão e me deixar cair. Talvez tivesse me segurado forte demais por um tempo e depois acabei te deixando sem forças, não te culpo. 

  Elize Parenko

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

6.12.12


 
Por favor, não me analise 
Não fique procurando 
cada ponto fraco meu 
Se ninguém resiste a uma análise 
profunda, quanto mais eu! 
Ciumenta, exigente, insegura, carente 
toda cheia de marcas que a vida deixou:
Veja em cada exigência 
um grito de carência, 
um pedido de amor! 

Amor, amor é síntese, 
uma integração de dados: 
não há que tirar nem pôr. 
Não me corte em fatias, 
(ninguém abraça um pedaço), 
me envolva todo em seus braços 
E eu serei perfeita, amor! 

 Mirthes Mathias

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

5.12.12


   O gozo de estar triste 

É tão triste acordar ao meio-dia
de um sábado que soa a vento e frio,
sentir que sobra uma porção de cama
(a cama se não estás é como um túmulo),
abrir os olhos ─  ou, melhor, que seja
a luz que vem abrir-mos ─  e saber
que tudo hoje será inútil, que
este dia nem um milagre o salva.

É triste levantar-se depois, sem jeito,
ir aos tropeções à casa de banho,
olhar-me, bocejar um par de vezes,
ver um homem sozinho no espelho,
um homem sozinho e que o sabe.

É triste que depois, contudo,
o meu corpo continue com o jogo,
e ponha a cafeteira, faça um sumo,
umas torradas e ponha tudo isso
numa mesa, que se sente, que coma
e beba e no mais negro do peito,
sem saber porquê, se lhe solte um pranto.

Torna-se então muito mais triste ainda
olhar pela janela, ver as nuvens
que passam, que ─  tal como a vida ─  passam
sem espaventos, mas que nos comovem,
apoiar-se, por fim, muito lentamente
às costas da cadeira e, isso mesmo,
deixar o olhar fixo e não ver nada.

Juan Miguel López
(trad. Joaquim Manuel Magalhães)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

4.12.12


Pudesse 

Pudesse eu
Ter uma gaveta
Onde guardasse
Os teus gestos quentes
Os teus lábios húmidos
O teu cheiro envolvente
Pudesse eu
Abri-la sempre que quisesse
Sempre que a saudade apertasse
Pudesse eu
Encostar o rosto nos lençóis
Fechar os olhos
Reconhecer o tactear dos teus dedos
Em toda a minha pele
E sentir-me repleta de uma aura
Azul e violeta
Que apenas tu sabes tão bem pintar

 João

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

3.12.12


O trajeto 

Me chamou o barulho de uma concha,
um trompete e um violoncello,
ventou orquestra de areia,
madrepérola
fez-me sopro, corda,
elo,
dobrou-me papel em barquinho,

ondas pra não sei onde.

  Sabrina Nóbrega

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

2.12.12


 
  Entardecer 

Hoje entardeci mais despida do que antigamente.
Não sei se pelos bosques tão devastados
se pelas bagas que colheste do meu dorso.

À tua sombra todos os amores são silvestres,
só as amoras são frutos impossíveis.

  Catarina Nunes de Almeida

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

1.12.12


   Último dos poemas de um marinheiro 

das paixões só conheci as mais pequenas
aquelas que nasciam na palma das mãos e desapareciam
com a água do mar. mas não eram paixões por barcos
ou pássaros ou cabelos teus: só uma fenda no céu
verde e azul e uma casa desabitada

das paixões só conheci as mais pequenas
como se no minuto imediato eu tivesse de esperar a morte
ou as aves no seu regresso do norte
de resto, implorei aos deuses uma morada branca
onde nenhum peixe chegasse antes do alvorocer
onde nenhum nome coubesse, onde nenhum olhar entrasse
implorei aos deuses o seu encantamento
não o seu dó. foi então que, das paixões, das mais pequenas
surgiram os teus olhos tão verdes e tão brancos
que só eu neles poderia poisar como um pescador
sem mar onde navegar ou lavar o rosto.

Francisco José Viegas 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
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