"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


30.11.12


 
 penso sempre que em algum lugar estarás à minha espera. tão longe vai o tempo. tão longas são as horas. que anos atrás de anos passam com os dias onde sei que me esperas - na pele crescem as noites. eu sempre acreditei . madrugada fora e ainda há tantas histórias pela casa. do corpo onde habitaste. dos cabelos que te viram partir - que amanhã nenhum verbo me devolva o teu rosto. ou me incomode o teu nome numa carta sem remetente. escrita na pressa de quem sabe que irá morrer - talvez um dia. quando as noites forem tão demoradas que fechar e abrir os olhos dure anos. que anos sejam tão longos que a vida custe muito. custe tanto que a morte seja o único alívio para todas as dores que o corpo conhece. 

  Mar

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29.11.12


 
  A árvore que ninguém visita 

Então eu fui. Uma tarde subi
Aquela colina íngreme e rochosa,
Parando para descansar e admirar uma flor silvestre
E a vista do lago
No vale lá em baixo.

Teria gostado de uma cabra por companhia.
Uma preta e branca, com um sino
Para ir à frente, pastar um pouco e romper
O silêncio quando este retoma sua ascensão
Até onde uma árvore escura e silenciosa está

Esperando todos estes anos que alguém
Se sente à sua sombra, em calma consigo mesmo.
Até o vento está sempre a inventar
Joguinhos para as suas folhas brincarem,
Sem pressa agora de perturbar a paz.

Charles Simic

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28.11.12


 
  O inferno 

Debrucei-me à  janela do inferno
e não vi nada que me horrorizasse;
pareceu-me um lugar igual aos outros,
cheio de gente e coisas. E alguém 
do inferno me disse para entrar.
Não me lembro quem era ou se eram vários,
nem o que me disseram lá de dentro,
ou se essas pessoas sorririam,
se haveria alguém a lamentar-se
ou se desconfiei por um momento.
Fui e achei a porta do inferno,
abri a porta do inferno, entrei,
desde essa hora vivo no inferno.
É um lugar igual a qualquer outro,
cheio de gente e coisas. Todavia
sei que não pode ser senão inferno
porque neste lugar não estás comigo.

 Amalia Bautista 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

27.11.12


   o início. o sonho. o fim. 

 eram mais ou menos cinco horas quando o telefone tocou. era você dizendo que ainda me amava. que não suportava mais a ideia de viver tão distante de mim. que o mundo estava cinza. que olhar para o céu não tinha mais graça sem os meus pitacos leigos e desinteressantes sobre as conjunturas planetárias. e foi essa a única vez em que acreditei em você. a única vez. 

  Flávia Vida

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26.11.12


O menos possível

Respirar
o menos possível
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho do fundo

A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães

Ernesto Sampaio  

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

25.11.12


 
Ela era uma mulher diferente
Gostava de se apresentar nua
Gostava de constranger
Com tamanha brandura
Ela ficava nua em sua casa de vidro
De longe desejo...
De perto ninguém sabia.

 Dafne Stamato 

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24.11.12


 
  Bordada de astros

Ir beber-te num navio de altos mastros
No mar alto
Ó grande noite alucinada e pura,
Brilhante e escura,
Bordada de astros;

Para ti sobe a minha inquietação e sobressalto,
O meu caos, desilusão e agonia,
Pois trazes nos teus dedos
A sombra, o silêncio e os segredos,
A perfeição, a pureza e a harmonia.

 Sophia de Mello Breyner Andresen

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23.11.12


 
  Fronteiras 

tenho navegado sobre duas vidas
duas dimensões
duas fases do tempo

projeções distintas
verdades partidas
mentiras divididas

nesta viagem abstrata
em que a espera 
confunde-se com a busca
meu voo é subterrâneo e solitário

eu tenho estado entre dois mundos
entre dois sonhos
entre quatro olhares
trinta e três palavras
infinitas imagens
uma só tristeza
e a única certeza:

do que fui 
do que sou
tornar-me-ei
o que me restou

 Celso Mendes   

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

22.11.12


 
questão noturna 

 de repente me deu, uma saudade do que nem sei o nome, ou se é que existe além do meu pensar&querer que seja. mais que de repente, em meu meu peito doeu uma dor reconhecida de forma atávica e singular, de gosto amargo feito vinho avinagrado que desce pela garganta a fora com tua imagem por dentro. imagem que gostaria de apagar, mas que insiste neste gosto de giz que se escreve e apaga diante das tempestades desérticas e passadas no lado do mar morto que é este meu coração. ainda sinto, se é que, teu gosto&cheiro no meu corpo que necessita de outro corpo&alma pra ser feliz e diferente do que sempre foi tristeza&perdas. hoje, não sei o que me deu, que desejei te rever além dos espaços cruzados que criaste para nos separar de vez. como se fosse possível. ou necessário. 

  albanegromonte

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21.11.12


  As noites vestem-se de branco e os dias são de faz-de-conta. 
Eu deixo-me ficar, rainha de folhas soltas ao vento, amores primaveris, cartas sem destinatário. Sozinha, que não se partilham silêncios como se fossem bolachas, almas como bocadinhos de rebuçados de café. De coração cheio, que os filtros são mudados, o amor-próprio aquece e a voz é de porcelana. Eu vivo em nuvens-unicórnio, bules de chá que giram num frenesim caótico. Não me importo. Tenho-me a mim, de sóis perdidos. Eu que nunca sou de nada, e tenho sempre tudo.

  Inês

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20.11.12


 
Chegas a casa com as mãos
cheias de sacos e vincadas
pelo esforço. o silêncio é escuro
antes de acenderes a luz; depois
o silêncio é o mesmo, mas ilumina
a solidão nos objectos da casa. largas tudo
logo à entrada. acendes a luz fria da casa
de banho. pegas no elástico, agarras os
cabelos, escuros. e lavas o rosto. ele
vai ficando na água. até que o faças
escorrer pelo ralo: sem nenhum som.

 Bruno Béu  

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

19.11.12


 
 (...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.

  Cecília Meireles 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

18.11.12


 Porque hoje a noite me parece uma invenção em aberto
sobre a cama abandono palavras

tenho o tempo nas pálpebras

assim, quando alguém me perguntar pelo sentido da insónia

eu, parada no meio do quarto,
direi que não sabia que na solidão se grita alto
para sobreviver ao medo

Maria Sousa  
 
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

17.11.12


 
O meu sono será uma longa
viagem sem sobressalto
numa cabine de comboio fechada
e só por minha conta

rumo a um lugar onde não posso
tirar fotografias.

 Rogério Rôla

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16.11.12


 
Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou

 José Tolentino Mendonça   

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15.11.12


 
La nuit n'est jamais complète
Il y a toujours puisque je le dis
Puisque je l'affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte
Une fenêtre éclairée
Il y a toujours un rêve qui veille
Désir à combler faim à satisfaire
Un coeur généreux
Une main tendue une main ouverte
Des yeux attentifs
Une vie la vie à se partager.

 Paul Eluard 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

14.11.12


 
  Sono una creatura 

Come questa pietra
del S. Michele
così fredda
così dura
così prosciugata
così refrattaria
così totalmente
disanimata

Come questa pietra
é il mio pianto
che non si vede

La morte
si sconta
vivendo

Giuseppe Ungaretti

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13.11.12


 
 Há dia, sabes, em que gostaria de ser como o gato e que me tocasses sem desejar encontrar quaisquer sentimentos a não ser o que se exprime num espreguiçar muito lento - um vago agradecimento? - e que depois me deixasses deitado no sofá sem que nada pudesses levar da minha alma, pois nem saberias o que dela roubar. 

Pedro Paixão 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

12.11.12


 
Há os que passam o tempo
desenrolando sobre a mesa
tapetes de paciencias.

Assim Tolstoi
de noite se aquietava
após as suas homéricas
batalhas contra o invasor.

Assim calma e dignamente
tecem e bordam as mulheres. 

 António Osório

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11.11.12


 
Perto da minha dama e longe do meu querer,
tão cheio de desejo e medo ao mesmo tempo,
o coração me falha e nas palavras tremo
quanto a poder dizer o que quero dizer.

Bela, disse eu, de dor fazeis-me estremecer,
 e nem sei o que digo, e nem sei o que penso,
 perto da minha dama e longe do meu querer.

De todas as demais nem desejo saber,
numa só coloquei todo o bem a um tempo,
Libertar-me ousarei do terror em que tremo
para pedir enfim que me façais valer
perto da minha dama e longe do meu querer?

 Alain Chartier   

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

10.11.12


Peça ligeira 

 Uma estação sem ninguém nas plataformas,
 Um banco na avenida e ninguém perto, 
Um armazém abandonado, 
O fim de uma via de manobras, 
Um autocarro vazio, 
Um jardim solitário, 
Um comboio sem luzes, 
A madrugada, 
Um oco. 
Eu. 

  José Ángel Cilleruelo 

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

9.11.12


 Cigarros na cama

Comecei a fumar porque você fuma
e eu certamente não queria viver
mais que você. Agora já sem
o seu hálito, suas bitucas e cinzas
na mesma cama, começo o dia
com um cigarro, exatamente
e ainda pelo mesmo motivo.

 Ricardo Domeneck  

   ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

8.11.12


 
  Durante o sono 

Durante o sono retiraram-me uma costela
Ficou-me no peito um vazio que não consigo preencher
Custa-me a respirar
Eu quero de volta a minha costela
quero de volta todas as costelas
Quero de volta o paraíso
quero de volta o silêncio rumorejante
quero de volta as poluções nocturnas
e diurnas
Quero uma mulher
feita de chuva
e vento
e fogo
e neve
e luz
e breu
e não de argila
como eu

Jorge Sousa Braga   

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

7.11.12


Não sou dona de nada

Não sou dona de nada
nem muito menos podia sê-lo de alguém.
Tu não devias temer
quando te estrangulo o sexo,
não penso dar-te filhos, nem anéis, nem promessas.

A terra que tenho é nos sapatos.
Minha casa é este corpo a parecer uma mulher,
não preciso de mais paredes e cá dentro
tenho muito espaço:
este deserto negro que tanto te assusta.

 Miriam Reyes 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

6.11.12


 
  Sombra de Ana

Passa-me a mão no cabelo, Ana,
passa-me a mão.
Serei criança para teus conselhos, Ana,
ou ancião.
Olha a neve que me cobre, Ana
- a desilusão.
Viver pesa-me neste mundo, Ana,
são já mil anos.
A chama viva que me queima, Ana,
não me dá trégua.
E nada vejo porque sou luz, Ana,
e vivo sem corpo.
Passa-me a mão no cabelo, Ana,
passa-me a mão,
não digas nada, vá, dá-me conselhos,
que eu estou cansado.

Josep Palau

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

5.11.12


   Sobre posições 

Deparo-me com o engano do que sou
Fujo dos outros, mas as vitrines subornam:

espelhos
reflexos

adões
evas

josés
marias

Rede de vidas que me dissimulam:

la femme
the man

la donna
don juan

Assim travestida não me enganam…

Sorrio fatal à mulher não fêmea
ao homem não macho
e alço céus e infernos.

Recrio do inventado
revivo minhas criaturas
e me desenlaço dessa divisão.

Feito anjo não caído
sobreponho-me

Feito poeta
visto-me de humanidade.

  Carmen Sílvia Presotto  

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

4.11.12


 
Lembras-te do jardim irreal e triste?
Do lago onde boiavam peixes de jade?
Existe ainda esse jardim irreal e triste?
Para voltar sempre parece tarde.

Dormias como um deus sobre anénomas brancas:
Como eras tão jovem, tão simples, tão claro!...
Teu rosto e tuas mãos eram anénomas brancas.
Só a memória guarda o teu retrato.

Que fizemos do nosso único momento?
Do grande? do verdadeiro, do exacto?
Agora o que há entre nós não tem momento;
Está fora do tempo e do espaço.

Maria Manuela Couto Viana   

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

3.11.12


 
Corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te porque parto
porque amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
Só para te dizer boa noite ou talvez tocar-te
e morrer

 Al Berto  

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

2.11.12


 
 Por vezes ouvia música.  Só ela ouvia música; aliás, era ela que escolhia, mentalmente, as músicas que ouvia, ouvia secretamente essas músicas.  E dançava com essas músicas; dançava com os olhos, com movimentos de cabeça, com os braços.  Podia estar a ouvir pessoas e estar, ao mesmo tempo, a dançar essas músicas.  Dançava; às vezes,  por dentro de si mesma. 

 

  Baptista Bastos 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

1.11.12


 Tenho uma lágrima
Presa nos olhos
E poemas abandonados
No fundo da gaveta
Entre fitas de crepe,
Naftalina, pétalas de rosa
Secas
E mofo.

Tenho coisas tão antigas
Como rabiscos desencontrados
Pedaços de papéis amarelados
E sem data,
Números, contas,
Colarinhos puídos,
Pires rachados.

Tenho, assim, um gosto
De tempo preso nas
Papilas
E manhãs embotadas
De sangue coagulado,
Marcas no rosto,
Cicatrizes e ferrugem
Nalguma camisola de algodão.

Tenho um carinho
Escondido debaixo do colchão,
Uma paixão desconhecida,
Antiga e subconsciente,
Que hoje se faz
Presente
Depois desaparece
Como fumo
Em frente
Ao espelho
Da solidão.

Quero sentir-me inteiro
Como as eternas verdades
Que tocam em mim:
O retrato de uma vida
Nos fragmentos da memória,
Momentos de riso,
Momentos de glória
Em um grande palco
Para contar a
História.

 Paulo Ramos

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨