29.2.12



Busca

Mansamente
abro as portas da existência
na incansável busca de mim mesmo...

Nada encontro,
só fantasmas do passado
em corredores vazios...

Inconscientemente
busco a ti...
minha melhor metade!

João Gaspar Leivas

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28.2.12



Depois de tudo

Mas tudo passou tão depressa
Não consigo dormir agora.
Nunca o silêncio gritou tanto
Nas ruas da minha memória.
Como agarrar líquido o tempo
Que pelos vãos dos dedos flui?
Meu coração é hoje um pássaro
Pousado na árvore que eu fui.

Cassiano Ricardo

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26.2.12



Borbulhante

Guardei meu poema dentro de uma bolha de sabão.
Como não ficar seduzida
pela circunstância lisa e transparente,
onde o arco-íris passeia docemente
e morre de amores pela espuma colorida?

Acomodado na nova moradia,
o poema suspirou e adormeceu.
Quando acordou, já não mais me pertencia.

A bolha de sabão se deslocara
e o poema apaixonado que eu criara
descobriu de repente que era teu.

Flora Figueiredo

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25.2.12



Saudade

Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.

Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.

Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.

Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.

A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.

Patativa do Assaré

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24.2.12



O guarda- chuva

Nas manhãs de Inverno
o homem transpunha a porta
e, sob a asa negra do guarda-chuva,
transportava a solidão.

No comboio,
ela entrava de roldão
e em cada rosto se estampava;
no trabalho,
por onde passeasse a sua vida morta,
a solidão medrava.

À noite, apenas regressado,
fechava a asa,
e deixava de novo a solidão
à solta,
pela casa.

Manuel Filipe

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23.2.12



A neve cai

A neve cai.
Há uma mulher nua no meu quarto.
Os olhos pousados na carpete cor de vinho.

Tem dezoito anos.
E os seus cabelos são lisos.
Não fala o idioma de Montreal.

Não quer se sentar.
Não parece ter a pele arrepiada.
Ficamos os dois a ouvir a tempestade.

Acende depois um cigarro
no aquecedor a gás.
E deixa cair os seus cabelos longos para trás.

Leonard Cohen
(trad. de Jorge Souza Braga e Carlos Tê)

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22.2.12



As pombas

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

Raimundo Correia

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21.2.12



Brechó

Como me sentia
muito entediada, vazia e só
fui comprar um coração usado
num brechó.
Encontrei de vários tipos:
lantejoulas, renda, pelúcia,
corações de vó (ao lado do pinguim de geladeira)
cristal, vidro e madeira
corações de freira
e um em especial
que já havia sido apertado por espartilhos.
E foi bem esse que me disse:
"Vá em frente, moça. Tudo que você precisa é de um pouco de fé"

Greta Benitez

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18.2.12



Espelho

quem me olha no espelho
tem na sombra velada do sorriso
o disfarce inábil de marcas antigas
o olhar em que o brilho se esconde
renega a identidade equívoca do rosto
a imagem muda nas margens do tempo
outros espelhos mentem de outra forma
com a convicção dos amantes infiéis

Alice Daniel

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15.2.12



Encontro-me comigo todos e cada dia
Nunca me deixo só a mim mesma
Não fico nem um segundo longe da minha vista
Por isso não consigo simplesmente entender
O que pode ter acontecido
A este rosto
Que me responde olhando-me fixamente
De velhas fotografias

Olga Ivanova

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11.2.12



Medo

Na solidão
não há perigo,
eu sei,

mas como me isolar
de meus demônios?

Salete Aguiar

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5.2.12



Dizia que viajar é poder partir-se
para o lugar em frente,
que cada lugar só impressiona porque sugere
a visibilidade do próximo.
E que no fim, quando abandonamos tudo
e já não ouvimos senão o repique dos sinos,
as paisagens deixam de existir para não
passar do que a respiração liberta.
O que nos conduz é podermos sepultar o
corpo noutro lugar;
porque em todos os sítios passados deixámos o corpo
à vista do lugar mais próximo.
Percebi, sem que mostrasse algum temor,
que havia descoberto a transparência do mundo,
que fora auxiliado pela face
suspensa dos viajantes.
E lembrei-me como o tempo havia de ensinar,
desde a juventude à velhice,
que onde a beleza assola habituamo-nos a uma pausa nos
olhos, nas mãos e nos olhos que são o que nos diz do
pouco do que nos fica sempre.

Rui Coias

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1.2.12



Esquecimento

Então a memória nos trai

E a antiga vida principia a desaparecer.
Algumas palavras.
Alguns sons.
Alguns cheiros.

E tudo o que parecia indivisível
desvanesce por inteiro.

Então a lembrança nos distrai.

E as vozes não nos chamam mais.
E o futuro se reveste de paz.

E então
o passado não mais nos atrai.

E nem mesmo o presente.
(sente!)

E tudo é só bruma e névoa e esquecimento.
Pezinhos de crianças em calçada de cimento.

Moacir Caetano

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