"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


30.9.11


A boneca e o nada

Dentro da velha casa de bonecas
minha predileta está meio desconjuntada
braços de pano pendentes
cara de nada absoluto.

Bobagem ou contradição em termos
não pode ser o nada absoluto
se ainda é uma boneca
mesmo quase desfeita
mas penso:
parte dela virou pó
não é mais a boneca que foi
porque começa a navegar no nada.

Triste e um pouco assustada
olho o espelhinho da casa e percebo que
o nada absoluto está em meu rosto também.

Adelaide Amorim

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25.9.11



Acto de contrição

Pelo que não fiz, perdão!
Pelo tempo que vi, parado,
correr chamando por mim,
pelos enganos que talvez
poupando me empobreceram,
pelas esperanças que não tive
e os sonhos que somente
sonhando julguei viver,
pelos olhares amortalhados
na cinza de sóis que apaguei
com riscos de quem já sabe,
por todos os desvarios
que nem cheguei a conceber,
pelos risos, pelas lágrimas,
pelos beijos e mais coisas,
que sem dó de mim malogrei

- por tudo, vida, perdão!

Adolfo Casais Monteiro

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13.9.11



Despedida

Uma harpa envelhece.
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores
sonham junto às estátuas de treva.
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se
foi amor.
Certo rumor de cálices, uma súplica ao dealbar das
ruínas,
tudo se perdeu no solitário campo dos céus.
Uma estrela caía.
Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do
sul, a sua extrema dor anoitecida.
Não vens jamais.
O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me
entristeço, a absoluta condenação.
Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam
no centro desta cidade.
Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim,
as tuas folhas de outubro.
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça,
a nudez de quem sangra à vista das catedrais.
O meu peito abriga as tuas sementes, e morre.
Esta música é quase o vento.

José Agostinho Baptista

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11.9.11



Prelúdio

Em um dia branco,
alva era a flor
que o perfume trazia
em sulcos profundos...
embriagando sentidos,
rasgando caminhos
enquanto a esperança
gritava...
tecendo novelos do tempo
que queria encontrar
asas pra fugir
do intenso escuro
que em malas guardava
sonhos sem janelas.

Cláudia Gonçalves

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10.9.11



o mundo me estranha
:- normal
também me estranharia
se não me conhecesse
há tanto tempo
:- e tão bem
se bem
que ultimamente
ando me estranhando
:- mais que ninguém

nydia bonetti

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8.9.11



Soneto do Apocalipse

O teu silêncio corta o dia claro
em postas de penumbra acinzentada.
Por mais que açoite o vento as folhas vastas,
eu nada escuto, só escuto ausências.
O teu silêncio arsênico assassina
horas de lesmas que se arrastam torpes,
e o dia é todo noite, e são fantasmas
os que andam rente a mim, sem que eu os sinta.

Silêncio pétreo... Meus ouvidos moucos
recusam-se a escutar, pois nada existe,
só horas que retalham pouco a pouco.

Uma surdez nevada se esparrama
dos fiapos deste dia que estraçalhas
com o peso do silêncio apocalíptico.

Gláucia Lemos

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7.9.11



Quando choro...

quando choro
todos os rios do mundo chovem no meu corpo
todos os amores represados desaguam no meu corpo
todos os amanheceres me anoitecem no olhar

por isso
aqui fico
navio soterrado na margem

assim
de braços calados

sem lágrimas.

Jorge Casimiro

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4.9.11



Meu rosto

viajei em muitas faces
emigrei de tantas formas
à procura do meu rosto

de um espelho para o outro
desde antes a até
atrás da imagem buscada

cada onda que vai
me arrasta
uma face transmitida

na procura de que rosto
quantos espelhos quebrei?
por quais águas me afoguei?

Helena Parente Cunha

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