"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


27.7.11



memórias

não diziam nada

perpetuavam-se no silêncio
de memórias antigas
densas
como se alimentassem
escondidos sinais
dum tempo inocente
correndo alegrias
para um sol mais quente

tão só assim
diziam nada

voavam no silêncio pleno
que morava nas suas faces

António Cardoso Pinto

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

24.7.11



Vazio

Inútil, vazio, oco,
assim está o meu peito
a cada dia que passa
a cada sonho desfeito.
Perdi o norte, a esperança,
uma andorinha sem asas.
Sinto crescer as raízes
que me prendem, asfixiam
e me queimam como brasas.
Não vejo nem posso ouvir,
das sombras que me rodeiam
é impossível fugir.
Sei que existem outros mundos,
que há locais onde o sol
continua a brilhar
e os pássaros chilreiam,
mas aqui onde me encontro
os silêncios são profundos.
Inútil, vazio, oco,
assim está o meu peito.
Não encontro solução,
no deserto onde me deito
está desfeita a ilusão,
só me resta um grito rouco...
Onde estás meu coração?
Tão vazio o meu peito.

Ana Lisboa

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

23.7.11



Manhã fria e cinzenta

A manhã está fria e cinzenta de tão vazia,
ninguém me vê

no mar tão macio, tão pequeno ao meu redor e
tão cheio de mim,

espero as horas que chegam, e partem, e voltam
parecem-me mulheres perdidas, desamadas, loucas,
cheias de silêncio levando as marés,

não ficam, não vou

ninguém é meu, ou minha,
não há histórias, não há memórias, não há cheiros,
não há canções, não há paredes manchadas, nem roupas estragadas,
não há flores no jardim, não há passos junto à porta,
não houve início, não há fim,
não há cama para fazer, nem mesa,
nem janela para abrir, nem livro pra fechar,

há um vazio
que não é possível,

um desejo
que não cresce

há uma dor
que não mata

Alma Kodiak

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

22.7.11



No fim

Se eu fosse me descrever hoje...
Seria tudo cinza, mas ainda assim, saberia ver a delicadeza... talvez minha vida em PB.
Se fosse me descrever hoje... seria luto
Ainda assim... há beleza, nos olhos embargados
Se fosse me descrever hoje, seria qualquer coisa de melancolia... ainda assim... poderia ser melodia
Se eu fosse me descrever hoje... eu nada seria... Ainda assim, me encontraria.

Dafne Stamato

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

20.7.11


Nocturno

oitenta anos
a idade desta minha casa
agora em ruínas
esventrada
destelhada
óculos nas janelas
rugas nas paredes
sinais de abandono

dizem que morou aqui um poeta
que está asombrada
e que altas horas da noite
o silêncio canta os seus versos

Francisco Gonçalves de Oliveira

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

19.7.11



Mãos

No deserto da insônia
a mão, triste, me acena
nua de anéis e luvas.
Dedos gesto de adeus
anunciam o abandono
da matéria efêmera.
Dos campos do sono
a mesma mão me chama
cintilante de estrelas.
Tento alçar-me da cama
no encalço do convite
mas a carne me amarra.
E enquanto o corpo dura
fico entre a dor da perda
e o desejo do encontro.

Astrid Cabral Félix de Sousa

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

17.7.11


Soam os sinos

Soam os sinos, soam.
Bem no ocaso da tarde,
Quando o sol vermelho
Desce a ladeira do fim da rua.
E cruza com a lua que sobe...
É dia e noite.
Acendem as luzes amarelas...
É chuva, é frio,
É lúgubre,
É tétrico!
É sinistro o tom do féretro,
Compassado pelos pés
Que se arrastam no chão!
Soam os sinos, soam.
Carpideiras cínicas e chorosas
Oferecem em holocausto
O corpo do amor
A qualquer Deus...

Gilson Froelich

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

16.7.11


Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

14.7.11


Caros amigos e leitores

Por motivo de doença de um familiar, minha mãe,
não estou com disponibilidade, física nem mental,
para continuar a postar no blog.

Espero voltar quando tudo estiver normalizado.

Agradeço à todos que por aqui passam e deixam seu carinho.

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

3.7.11



O amarelecer da memória

Estive hoje no local da total distância, no tempo da absoluta indiferença. São estas as viagens que qualquer pode fazer, não saindo de casa, encerrado no confinado de um quarto, encerrado no interior de si. Há quem o faça pela madrugada, enquanto a cidade dorme, ou domingo à tarde, que é quando a tristeza dói mais, por parecer única. Estive hoje suspenso a rever-te, antiga fotografia de uma viagem que eu não fiz a um destino onde nunca estarei. Há momentos assim: ferem-nos a retina, arquivam-se no cérebro, ficam, como as gravuras dos velhos livros de um parente morto, amarelecidos e para sempre esquecidos, no alto de uma estante, na prateleira do nunca mais.

José António Barreiros

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

2.7.11


Portrait

nem tão triste
que me apague
nem alegre a ponto
do branco
causar espanto

poso na estante
no indelével estilo
amarelo-verniz
[impermeável]

vão-se os dentes
fica o velho retrato:
permanente
sorriso de giz

Valéria Tarelho

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

1.7.11



Corpo

Meu corpo cansado pede
o tormento: desacerto
em horas
tardias (o arrependimento
cessa a contagem
desfeita em prantos)

a longitude do planeta
indica a inconsequência
da vida remanescente

(sinto o corpo parado
ao instante da decisão
no engano aparente)

Pedro Du Bois

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...