"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


30.4.11



Os girassóis

Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão
De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém
As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens

Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos

José Tolentino Mendonça

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

29.4.11



Auto-retrato

Para onde quer que vá
já lá estive
o que quer que faça
não posso decidir
quem quer que eu ame
é uma parte
por muito que morra
fico com vida

Eva Christina Zeller
(trad. de Maria Teresa Dias Furtado)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

28.4.11



A quem...

Não sei a quem o tempo obedece mas certamente não é a mim.
Todas as noites, à janela, espero.
Saio, entram pensamentos, volto, entram palavras.
Músicas tocam.
Não chegas, não vens.
Dia, dia e meio, pretérito.
E antes, a ausência.
Impressões, nostalgias, cumplicidades.
Fatigada, busco o tédio à perfeição.
E o seguinte dia, também espera.
Trocar as diferenças, colorir nuances, lapidar facetas.
Dia esse, outro também.
Vem, vou desarrumar-te.
Todo, todas às vezes.
Saudade.
Saudades.

Maria Odila

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

27.4.11

mais uma vez desce as escadas
para falar de ausências

tem medo e em dias curtos decide
envelhecer no interior da casa

ao sono conhece-o como fuga ao silêncio

um dia escreveu (era domingo) sobre os vestígios
da respiração nos pequenos nadas

anos depois refugia-se no outono como
quem vê a vida toda nas folhas

Maria Sousa

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

26.4.11



Estou cansada.
Cansada de lutar contra esta corrente.
Mas eu não quero ir. Deixem-me aqui. A esperar...

Luto por algo que nem eu bem o quê.... talvez contra mim...
Não quero amar, não quero que me amem . Tenho medo...
Mas a verdade é que a solidão me destrói aos poucos.
Nunca quis esta vida para mim, no entanto, é mesmo isto que tenho. Uma vida vazia.

Nunca quis tornar-me nisto, fria.... distante... sozinha... amargurada... Todos dizem-me que tudo isto vai passar... dizem-me para não ser parva, dizem-me que sabem como é, que compreendem... Compreender?!?... como podem comprender o que nunca viveram?... espero que nunca vivam!...

Vitó

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

25.4.11



unmade bed

um homem de uma mulher pode ocupar toda a casa
sem nunca o saber. em todas as coisas que uma casa
pode ter
uma mulher pode refazer a cada dia
o seu homem
e deitá-lo
sentá-lo
aninhá-lo entre as sertãs e os pratos da loiça de viana
entre as linhas de coser e
as cortininhas de chita que o tempo
embolorece. há um homem
a dormir nesta cama
muito depois de o homem
partir.

Marta Caldeira

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

24.4.11


Pensamentos quânticos II

Hoje decidi não sentir saudade... Olhei dentro de mim pra encontrá-la e expulsá-la... mas ela fugiu e ocultou-se... Corri, busquei mas não a achei dentro. Então decidi sair fora, sair de mim, olhar o mundo buscar nele...

O primeiro que veio à minha cabeça foste tu meu amor, foi o muito que eu sinto esta distância, e aí nesse instante senti como a saudade se coava para dentro de mim, ocupando-me completamente...

Aí eu compreendi a nossa dança:
quando eu saio ela entra.

Concha Rousia

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

23.4.11


A Tua Morte em Mim

A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.

Adolfo Casais Monteiro

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

22.4.11



Histórias Improváveis

Deixa-me entrar na tua casa, sentar no teu sofá e chorar dias seguidos, sem parar, sem ter que parar, sem limpar as lágrimas, alguém pode ver, sem disfarçar a dor, sem medo de ficar com os olhos inchados, o rosto disforme. Não tens que compreender nem te afligir. Sou só eu a ser aquilo que sou em certos dias da vida – inconsolável. Não quero o teu lenço, obrigada, nem o teu ombro, nem água, apenas chorar sentada no teu sofá, chorar no teu cenário, manchar a tua normalidade, gritar dentro dela, fazê-la tremer um pouco. Chorar também por ti que não choras e é preciso de vez em quando. Nem te emocionas, apenas te ris e te preocupas e és malevolamente bom.

Ângela Leite

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

21.4.11

queria morrer contigo
não queria morrer de ti

prendi o amor nos meus braços
mas uma chuva de areia negra
cospe o meu sangue onde o coração

queria morrer contigo
contra o corpo limite do dia
arder praias onde o tempo acabava
começar Deus onde era o fim
não queria morrer de ti

a noite toda tem a espessura da perda
a boca beija o batimento da terra
o medo abraça-me

e ainda é tão tarde para que morramos os dois

Pedro Sena-Lino

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

20.4.11


Esvaziamento


Por onde andou você, nessa madrugada fria?
Quando me fiz silêncio, por que não me agasalhaste?
Adormeço só, entre a precariedade da minha existência
e as agonias do meu ser.
Moldo-me, entre as plumas do meu travesseiro.

Beth Almeida

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

19.4.11


As fotografias

As fotografias precedem a memória,
são a realidade parada de luz.

As fotografias evoluem como os olhos,
entre reformulações e malogros.

As fotografias não amarelecem, queima,
não se enchem de pó mas de granizo.

As fotografias duram mais que a memória,
mas não muito mais.

Pedro Mexia

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

18.4.11


Aos poucos a vida nas gavetas

Arrumar aos poucos
a vida nas gavetas:
blusas de cetim
vestidos de musselina
sobre postais bilhetes fotografias

- e um ligeiro aroma a sândalo.

Confiar os pequenos adereços
aos seus lugares de esquecimento
e guardar com eles a complexa
indefinição da memória,

como se todos os refúgios
fossem um tempo subtraído à vida.

Sara Felício

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

17.4.11



Almas expostas contemplam-se!
Almas gêmeas completam-se!
Nada lhes falta, tudo lhes sobra.
Amor siamês acopla pensamentos,
Sentimentos, vontades, virtudes,
Desejos, valores.
Soberana perfeição,
Fruto da Arte Criadora,
O encontro se faz perfeito,
A vida se faz beleza,
O amor se faz eterno.

Gilson Froelich

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

16.4.11

Cari giorni

Cari giorni a me sereni
d’innocenza e di virtù,
foste brevi, siete spenti,
né a brillar tornate più.
Nel dolor è scorsa intera
la prim’ora dell’età,
mia giornata innanzi sera
nel dolor tramonterà.

Giuseppe Persiani

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

15.4.11

Não

Não posso ficar na cama porque encontro o teu cheiro nela. Encontro ali o teu corpo. E lembro-me que sinto falta das tuas mãos sobre mim e sinto saudades do teu rosto sobre os meus ombros e dos nossos pés a brincar no fundo da cama. Quero ir para esse lugar estranho onde estás e deixar-te abraçares-me até pouco antes do dia amanhecer e as outras pessoas acordarem. Porque eu não devia querer isso...

Pedro Rapoula

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

14.4.11


Medo

O pior de tudo é que eu sinto uma sombra por trás de mim e não sei por que nome lhe hei-de chamar. (...)

Tenho medo de mim mesmo, tenho medo da minha alma, tenho medo de me encontrar sós a sós com a minha alma, que é nada, o fim e o princípio da vida e a razão do meu ser.

Mesmo que Deus não exista e a consciência seja uma palavra, há ainda outra coisa indefinida e imensa diante de mim, ao pé de mim, perto de mim.

Raul Brandão

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

13.4.11

Em nome da tua ausência

Gosto tanto de estar contigo e às vezes quero tanto estar sozinho. Às vezes preciso tanto de ti e outras vezes preciso só de mim. Às vezes quero que estejas aqui em casa e outras vezes não. E às vezes esse querer dura apenas alguns minutos ou segundos. Mas há dias em que a solidão e o frio me invadem e eu sinto-me pequeno e só e triste. E acho que amar devia dar um pouco mais de calor...
Na verdade tenho saudades tuas. Mas saudades mesmo. Daquelas que provocam um peso no estômago e fazem doer. E é nestes dias que tenho mais dificuldade em sair da cama. E chego a ficar assim, congelado, como se apenas a tua presença ao meu lado me trouxesse algum conforto.
Em nome da tua ausência arrasto os olhos de rosto em rosto, buscando a tua face. Em nome da tua ausência perco horas na cidade a percorrer os teus caminhos, sonhando com os teus passos. Em nome da tua ausência gasto os dias em angustias, em lágrimas, em solidão. Em nome da tua ausência deixei de sentir.
Na verdade tenho saudades tuas.
É tempo de aceitar que te perdi de vez.

Pedro Rapoula

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

12.4.11


Entre o sempre e o nunca

Entre o sempre e o nunca
é que as coisas acontecem
um segundo sem fôlego
quando menos se espera
o mundo transforma-se

afundado em si próprio
sete corações abaixo
é que de repente se imagina
uma época em que as pedras
começam a sangrar.

Pia Tafdrup

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

11.4.11


Le dé

Sempre gostei que decidissem por mim. Com B. havia uma regra de jogo: nos dias pares era ele quem tomava as decisões, nos dias ímpares era eu. Quando ele partiu para a América ofereceu-me um dado para o substituir. Um dia, por ocasião de uma “vernissage”, um homem aproximou-se de mim e apresentou-se. Usava o mesmo apelido de B. Exprimi a minha surpresa perante a coincidência que se revelava pouco comum, entre as letras do seu nome e as do nome do meu amante. A sua resposta foi galante: dois homens com nomes idênticos amavam-me. No dia seguinte, convidou-me a partilhar a sua cama. Decidi confiar a minha decisão ao dado. Por intermédio da sua prenda, B. aprovou o seu sucessor.

Sophie Calle

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

10.4.11

ontem a morte passou por mim na rua
vestida de preto
cambaleante e desmazelada
com um carrinho sem rodas que arrastava
deixando marcas no pavimento

ontem de arrepio
acendi uma vela
vermelha. pingava, pingava
como se chorasse

ontem mais uma vez o de sempre
a morte à frente
e tu ali estendido sem nada poder fazer

(quanto tempo mais vou ter que te ver morrer?)

sophiarui

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

9.4.11


Fugir

Sempre esta vontade de fugir. De quê, não sei. De mim própria, provavelmente. Partir simplesmente sem destino nem limite.

A palavra é essa. Partir. Quebrar amarras,
deixar lugares, sem adeus, sem despedidas.

Sentir a falta das pessoas em vez de me desiludir delas todos os dias. Mas fico. E com razões que (me) dou, me engano, sabendo-o. Talvez a viagem seja ilusão. Porque, na bagagem, comigo levaria a vontade de fugir.

Alice Daniel

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

8.4.11


Lágrimas

Lágrimas de pedra,
sonhos de cristal
destroçados pelo frio e cortante
vento da madrugada.
Pedras que destroem,
aniquilam.
Arrancadas do coração
com dor, amor e ódio
pelo sonho não mais sonhado,
porém profundamente guardado.
Melancolia, depressão...
Soluços sufocam,
as lágrimas matam...
E eu... apenas disfarço.

Débora Linden Hübner

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

7.4.11


Aquele dia

Acabou o arraial,
folhas e bandeiras já sem cor,
tal qual aquele dia em que chegaste.
Tal qual aquele dia meu amor.
P'ra quê cantar
se longe já não ouves?
O nosso canto ainda está na fonte,
o nosso sonho nas estrelas do horizonte.
Ainda nasce a lua nos moinhos,
ainda nasce o dia sobre os montes,
ainda vejo a curva do caminho,
ainda os mesmos sons as mesma fontes.
Tu sabes meu amor não estou sozinho
pelas salas do silêncio em que te escuto.
Abro janelas ainda cheira a rosmaninho,
vejo-me ao espelho ainda vejo luto.

João Ferreira Rosa

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

6.4.11

Encontro das Águas

Até então, eram dois Rios... distintos
Porém, pelo acaso dos cursos,
desaguaram no mesmo leito
Misturando não apenas suas águas,
como também,
toda a memória das passadas margens
Tornando-se assim, mais densos e profundos
Para então, juntos,
seguirem um só curso
Dividindo o mesmo sonho de Mar

Até então, éramos dois seres... distintos...

Marcelo Roque

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

5.4.11


Às vezes paro à porta
com o olhar perdido e habituado ao silêncio,
há mais desertos ainda, dias
e morte noutros olhos.
Com a garganta habituada à sede,
com os pés às feridas,
saio para a rua
e já não há umbrais.

Ando um dia, passo outro,
acabo uma semana de vidros partidos
e tosse mais velha.
Hoje parece que sempre
choveu sobre mim,
e não me importa
se a chuva já não se parece ao esquecimento
e apenas deixa charcos, paredes mais sujas
e fuligem e tristeza nos olhos de rímel,
ainda tenho sede
e não me importa
voltar às coisas más e aos velhos tugúrios
à procura de algo que não encontro nem recordo,
que costuma principiar por um encontro,
talvez por outra palavra
e corre o perigo de crispar-se
até a forma da folha da faca.

Às vezes tudo é tão estranho
que não basta continuar a andar.

Alfonso Barrocal

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

4.4.11


aos poucos
rasgo o espelho da memória.
redesenhando novos traços
esculpidos em voo livre
sob a estrela que roubei
num olhar moribundo.

aos poucos
enterro o coração de papel.
esmagando na poeira do vento
as palavras negadas.

Ana Barros

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

3.4.11


Vem à mim,
a cada noite que passa,
um murmúrio mudo
e replicente
que incide
em dizer-me
uma triste verdade.

Como um pássaro
que aos sussurros
diz ao pé do ouvido
que não terei nada além
de volúpia e solidão

E que o outro lado
da cama, ao alvorecer,
Sempre estará vazio...

Wagner B. Santos

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

2.4.11


Solidão num sábado

Estou inútil, sem você,
nesta noite de sábado que começa.

Há as horas que terão que passar, que vão passando
e que me amedrontam
como o imenso deserto ao caminhante já sem forças.

Assisto à tarde que se vai, triste, oleosa,
como se a visse quadriculada, de uma cela,
sem direito à paisagem.

E o pior é que hoje é sábado,
e antes da segunda em que te colho,
há sempre um domingo em que te perco.

JG de Araujo Jorge

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

1.4.11

Noite vazia

Crescimento do silêncio a devorar as nuvens.
Voo incansável e monótono das aves brancas do cérebro.
Florida e ondulada suspensão da mágoa.
As ferocidades são ternuras desmaiando na estepe adivinhada.
O amor abre goelas bocejantes nos côncavos da ausência do espaço. E a morte espreitando a lentidão irradia baçamente a sua despedida.

Noite vazia.

As aves brancas do cérebro
inutilmente abatem as suas asas!

Edmundo de Bettencourt

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
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