"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


31.12.10


Às vezes penso que não é o tempo que passa, somos nós que invadimos calendários e arrancamos dias, somos nós que construímos relógios e giramos os seus ponteiros enrugados, somos nós que inventamos minutos e carregamos horas dilaceradas em nossos bolsos vazios.

Às vezes me ocorre que não é o tempo que passa, somos nós que caminhamos para trás.

Thomas G. Marasco

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30.12.10


Com um só fósforo ilumino o infinito.
E muitas vezes o infinito é algo
muito próximo, um livro, uma chávena
de chá, o teu rosto escondido
na penumbra, o retrato de alguém desconhecido
que de uma praça, acena,
um fio de tabaco, um monograma
num lenço muito branco.
O infinito o mais das vezes é
não mais do que o que toca o coração,
uma leve poeira pelo ar, um ponto fixo
que a mão ousa tocar, esta chama
que de repente amplia a escuridão
e me torna visível a quem passa
e no clarão acende o seu cigarro.

Amadeu Baptista

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29.12.10


faz hoje oito dias passei a tarde no quarto
arrumando sentimentos (telefonemas
demorados caixotes de canto cheiíssimos)

o que trouxe a chave de casa as portas
do primeiro beijo. no outono caem as
folhas da estante e os livros ficam nus

solto uma fotografia entre o armário e
a parede investindo na surpresa de te
encontrar por acaso na próxima arrumação
do quarto. traço círculos a vermelho

no calendário de parede (sem pressa
de consultar os riscos dentro da mão)
os gatos sempre se deitam sobre o papel
mais necessário

João Luís Barreto Guimarães

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28.12.10


Sonhando...

Tarde deliciosamente fresca...
Iluminada em azul-clarinho, como um presente.

Tarde com gosto de tempo, onde lembranças afloram.

Tarde onde se pode, num devaneio louco,
olhar as nuvens passeando,
olhar a vida escorrendo pela ladeira.

Tarde onde tarde arde a alma,
onde tudo aflora, onde a canção da vida chora,
onde tudo implora, onde sua lembrança me namora.

Tarde onde nunca se faz tarde, onde o momento é agora.

Será realmente tarde dentro de mim essa hora?

Matilda Penna

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27.12.10


Da meia-idade

A rapariga na casa de chá
não é tão bonita como era,
o agosto já a gastara.
Já não sobe as escadas tão depressa;
sim, também ela se aproxima da meia-idade,
e o brilho da juventude que ela espalhava sobre nós
quando nos trazia os bolos secos
já não se espalhará mais sobre nós.
Também ela se aproxima da meia-idade

Ezra Pound
(trad. de José Palla e Carmo)

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26.12.10


Ela gostava de tudo aquilo: da mesa da cozinha, dos pequenos bancos de madeira, das árvores que conseguia ver da janela, de uma certa pureza do ar que a obrigava a renunciar aos prazeres de adulto: aquele tempo tinha uma marca infantil. Crescera naquela casa. Mas agora acabou: estava já crescida. Como uma investigação que termina, ela sentia que chegara ao fim. Já não cresço, murmura. Não havia necessidade de não ser sincera: estava sozinha, podia dizer a verdade.

Gonçalo M. Tavares

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25.12.10


Sotão

Por interstícios das malas abertas de quando éramos
crianças gritam as bocas sem nenhum eco
das bonecas. Criaturas fictícias, escalpelizadas
e sem tintas, de ventre oco. Mas o mortal
lugar do coração está ainda a palpitar.
O bojo do peito de celulóide, como o meu,
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.

Fiama Hasse Pais Brandão

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24.12.10


Sempre oscilando... eternas ondulações

Alma em carne, carne em alma.
Luz opaca; cor-de-terra; vento nordeste; por-do-sol; muitas vidas em uma só.
Nada que possa ser de grandes feitos; mas nada que possa passar desapercebido.
A simplicidade de uma bordadeira nordestina e uma tela de Modigliani.
Um livro de cordel e um poema de Cecília Meireles.
Um deserto silencioso e o eco dos buburinhos infantis.
Uma lenda e uma dura realidade.
Um pé nas nuvens e outro na terra firme.
Da fantasia e o dia-a-dia ordenado.
Da doçura juvenil e aos momentos de um mar revolto.
Sempre oscilando... eternas ondulações.

Bernadete Soriano

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23.12.10


(...) Dormes na minha insónia como o aroma
entre os tendões da madeira fria.
És uma faca cravada na minha vida secreta.
E como estrelas duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro nas trevas.

Herberto Helder

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22.12.10


A Música

A música
acorda
os instantes
amordaçados
pelo silêncio.

A música
ressuscita
teus antepassados
presos
encarcerados
em pedregosa
ausência.

Os avós
de teu anonimato
os pais
de teu desterro
despertam
a vertigem
de astros
alucinantes
a embriaguez
de ocasos inéditos.

O canto
perpetua
a sina
de teu sangue:
memória
esbatida
pelo tropel
das cinzas.

Alexandre Bonafim

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21.12.10


Velhice

Chega o vento
e leva tudo;
tudo vai tristonho e mudo
como a água vai pro mar...

Passa o vento
passa o tempo
e as lembranças do passado
vão ficando
vão mofando
no seu armário fechado...

Leva, vento
leva tudo, sem lamento:
-flores secas, cartas relidas
livros e fotografias
cartões e outros achados,
velhos sonhos desta vida
que já estão amarelados.

Chega o vento e leva tudo
tudo que já não pode ficar...
vai tudo tristonho e mudo
como a água vai pro mar!

Zoraida H. Guimarães

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20.12.10


Alegria pura e tranquila

Como todos os anos, tudo se cobre de neve,
E eu, bêbada, ponho flores de ameixeira nos cabelos.
E as despetalo, uma a uma, e nada me sossega,
Já ganhei, sobre meu vestido, lágrimas claras!

Este ano, neste canto perdido entre o céu e a terra,
Já meus cabelos embranquecem nas têmporas. Tristeza!
Vi a destruição que o vento causou durante a noite:
Difícil encontrar, agora, flores de ameixa ainda belas!

Li Qingzhao
(trad. Sérgio Capparelli e Wu Di)

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19.12.10


Coloral

Quando ele foi embora, ela tratou logo de tirar todas as flores e cores da casa. Pintou todas as paredes de bege.
Aquelas flores só faziam cheirar a cemitério. Ficavam sobre o aparador, estáticas e cabisbaixas, velando toda a energia que, com ele, tinha se esvaído.
A casa ficava sóbria assim, pálida. Ao contrário dela, entregue às alucinações, às pontas de viagens inacabadas e a um alcoolismo anestesiador.

Coisas muito coloridas têm cara de criança, ou de prostituta.
O estranho era que, mesmo com tudo bege tão discreto, longe dele ela estava se sentindo um pouco dos dois.

Samantha Abreu

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18.12.10



Tu, Leitor

Pergunto-me como te vais sentir
quando descobrires
que fui eu que escrevi isto em vez de ti,

que fui eu que me levantei cedo
para me sentar na cozinha
e mencionar com uma caneta

as janelas ensopadas pela chuva,
o papel de parede com heras,
o peixe-dourado circulando no aquário.

Vá lá, dá a volta,
morde o lábio e arranca a página,
mas, escuta - era só uma questão de tempo

até que um de nós casualmente
reparasse nas velas apagadas
no relógio murmurando na parede.

Para além disso, nada ocorreu nessa manhã –
uma canção na rádio,
um carro assobiando na estrada lá fora –

e eu simplesmente pensando
no saleiro e no pimenteiro
colocados lado a lado num mantel individual.

Perguntei-me se se haviam feito amigos
depois de todos estes anos
ou se ainda eram estranhos um para o outro

como tu e eu
que conseguimos ser conhecidos e desconhecidos
um para o outro ao mesmo tempo –

eu a esta mesa com uma fruteira de pêras,
tu encostado algures na entrada de uma casa
junto a umas hortênsias azuis lendo isto.

Billy Collins
(trad. de João Luís Barreto Guimarães)

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17.12.10


Por alguns instantes fiz parte de novo daquela vida entregue ao destino há duas estações. Passei pela porta da sala e deixei o cheiro da flor, agora bem fraco, invadir a alma confiada ao que já nos era previsto. Tudo estava lá como antes deixara. As paredes ainda guardavam cada quadro milimetricamente instalado, em cada canto encaixavam-se os mesmos móveis, tudo em seu antigo e devido lugar. Nos cômodos o vazio das lembranças, do desejo antigo, do reencontro, do primeiro beijo, do amor proibido, dos grandes planos e expectativas, do temor ao passado, de todos os sonhos adiados. Do meu reflexo no espelho dava para ver, nitidamente, o que já não mais cabia lá. Da rua ainda vinha o ruído dos carros passando e o mesmo rangido no portão. Era a vida que continuava lá fora. Era sua vida que já seguia, agora sem mim, aqui dentro.

Flávia Vida

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16.12.10


... e foi aí que ela percebeu que o amor não estava
somente no último soneto daquele livro esquecido
no banco do trem para Paris.

Flávia Vida

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15.12.10


Oferecendo de beber a Pei Ti

Vem beber um copo e descansar,
os homens mudam sempre, como as ondas do mar.
Nós dois temos envelhecido juntos,
apesar dos reveses, continuamos vivos.
O primeiro a habitar uma casa de portões escarlates
pode sorrir, ao olhar os outros de chapéu na mão.
Tu sabes, basta um pouco de chuva
para reverdecer a erva dos caminhos.
O vento da Primavera é ainda frio
mas os botões das flores quase desabrocharam.
Por que tanta pergunta, tanta luta,
os negócios do mundo, as nuvens flutuantes?
Descansa, deixa fluir a vida,
e vem jantar comigo.

Wang Wei
(trad. António Graça de Abreu)

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14.12.10


Paisagem com frutas

Duas peras sobre a mesa
esperam a tua fome.
O dia é verde
e o vento tem cores provisórias.
Sobre o muro
um pássaro mudo
de olhar escuro
perscruta a tua sombra
Ele sabe
que ninguém sabe
em que azul
ocultas
teu absurdo.

Maria Esther Maciel

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13.12.10


Dúvida

Eu corro atrás da memória
De certas coisas passadas
Como de um conto de fadas,
De uma velha, velha história...

Tão longe do que hoje sou
Que nem sei se quem recorda
Foi aquele que as passou,
Ou se apenas as sonhou
E agora, súbito, acorda.

Francisco Bugalho

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12.12.10


Resumo

Hoje
não choveu estrelas
nem
pétalas de prosa,
hoje
fez-se brisa
onde era brasa
e restou
uma poesia rasa,
hoje
eu esqueci as asas
(...) em casa.

Múcio Góes

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11.12.10


Tarde sangrada

Era
uma flauta tocando
ave-Marias na tarde,

um gesto pincelado
em forma de saudade,

Mar sangrado
em secretos movimentos

Um desejo navegado
pelas margens do teu corpo

Era
um vazio ou um grito
ou
um insondável encanto

ou
um cristal de pranto
pelo abraço não dado

Luiza Caetano

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10.12.10


Sobre pontes que voam

Vagu
ei s
obre
águ
as
perd
idas,

e des
cobri
que
já tinh
am s
ido

as p
artes
que
sem
pre
bus
que
i

qu
ando
ando
busc
ando
o in
teiro

desc
ubro

o quan
to me
frag
men
tei
.
.
.

Mauro Veras

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

9.12.10


Pedaços

Estou estilhaçada
silêncios saem da boca
mansos
estava desenhando
palavras
perdi o jeito de amanhecer

tenho tantos pedaços
que sou quase infinita

Vera Lúcia Oliveira

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

8.12.10


abismo...

nunca falamos muito. (acho que nunca falamos nada) e não sinto necessidade de começar agora. o que poderia dizer? existem séculos e séculos de silêncio entre nós e, debaixo dos séculos do silêncio, ocultas lá no fundo, se calhar esquecidas, se calhar presentes, se calhar apagadas, se calhar vivas e a doerem-me, coisas que prefiro não transformar em palavras, coisas anteriores às palavras...

Antonio Lobo Antunes

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

7.12.10


na saliva no papel
no eclipse em todas as linhas
em todas as cores em todas as jarras
no meu peito fora, dentro
no tinteiro na dificuldade de escrever na maravilha dos meus olhos, nas últimas luas do sol (mas o sol não tem luas) em tudo e dizer em tudo é estúpido e magnífico Diego na minha urina Diego na minha boca no meu coração na minha loucura no meu sonho no mata-borrão na ponta da caneta nos lápis nas paisagens na alimentação no metal na imaginação nas doenças nas montras nas suas astúcias nos seus olhos na sua boca nas suas mentiras.

frida kahlo

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6.12.10


Gasto-me à espera
impraticável

fiel
sugo os lábios da noite

invariável caio
nos poços da noite

Gasto-me à espera da noite alheia
amassada de gargalhadas doces e areia

Amor anoitecido vem
tecer-me um vestido
nocturno

Atraiçoo os anúncios luminosos
até a lua nova sabe a ausente
- e eu anavalhei-te com naifas de ansiedade -

Estou à espera da noite contigo
venham as pontes ruindo sobre os barcos
venham em rodas de sol
os montes os túneis e deus

Estou à espera da noite contigo
livre de amor e ódio
livre
sem o cordão umbilical da morte
livre da morte

estou
à espera
da noite

Luiza Neto Jorge

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5.12.10


Ausência em mármore

Ausências sonâmbulas
madrigais que se acendem
como carícias de mar.

Respirações amarfinadas
submersas em lago marmóreo
como superfícies gélidas.

Semblantes ausentes
como aurora interrompida
pelas venezianas da janela.

Segredos em sangue
como corpos estendidos,
como sílabas de fogo.

Pássaros disformes, teu olhar
como presenças quebradas,
como algo que se acende
E apaga.

Karoline Serpa

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4.12.10


Orquídea em flor

Pra que lado sopra o vento?
Importa saber?
Sei apenas
Que sopra em meu rosto

É uma brisa,
arejado frescor
de orquídea em flor

Não posso mudar
o sentido do amor
que pulsa em meu peito
em todos os pulsos
de minhas veias
e me dão impulso
pra rasgar as teias

E eu gosto
desse gosto
de agosto
em outubro, novembro, fevereiro
o ano todo resumido
num só momento, por inteiro.

Helio Jenné

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3.12.10


Canção da moça de dezembro

A moça dança comigo
nessa noite de dezembro.
Na sala onde giramos
se alguém mais há não me lembro.

O ondear da moça ondeia
uma melodia ainda
mais doce que a da vitrola
— e uma alegria vinda

dessa doçura me envolve.
Cabe bem no meu abraço
esse perfume com que
vou girando e em que me abraso

em meus quinze anos (a moça
terá, talvez, dezessete
ou dezoito). Como a valsa,
a vida o melhor promete.

E já oferta: esse corpo
a cada instante mais perto.
Ao qual responde meu corpo,
como nunca antes desperto.

E a moça vai-me queimando
em seu hálito, afogando-me
nos cabelos, e nos olhos
luminosos siderando-me!

E eis que, dançando, saímos
além da sala e do tempo.
E dançando prosseguimos
sempre que sopra dezembro,

nos mesmos giros suaves,
nos mesmos ledos enganos:
eu, o antigo rapaz,
e a moça, morta há treze anos.

Ruy Espinheira Filho

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2.12.10


Nantucket

Flores na janela roxo
- Claro e amarelas

alteradas por cortinas brancas
— Cheiro a limpo

— Sol do entardecer —
Na bandeja de vidro

um jarro de vidro, o copo
voltado para baixo, e junto ao copo

uma chave

— E o branco leito imaculado

William Carlos Williams
(trad. de José Agostinho Baptista)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

1.12.10


Queima o sangue um fogo de desejo,
de desejo a alma é ferida,
dá-me os teus lábios, o teu beijo
é o meu vinho e minha mirra.

Reclina para mim a cabeça
ternamente, faz que eu durma
sereno até que sopre um dia alegre
e se dissipe a névoa nocturna.

A. Púchkin

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