"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


31.3.10

Tarde sangrada

Era
uma flauta tocando
ave-marias na tarde,

um gesto pincelado
em forma de saudade,

mar sangrado
em secretos movimentos

um desejo navegado
pelas margens do teu corpo

Era
um vazio ou um grito
ou
um insondável encanto

ou
um cristal de pranto
pelo abraço não dado

Luiza Caetano

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

30.3.10

Em silencio

E nem é necessária a palavra
para que aconteça o verso.

Basta um segredo,
um sonho,
um instante e um sim.

Porque tudo o que há para ser dito
revela-se na rima silenciosa da emoção
de quando você vem...

e se poema em mim....

Helena Araújo

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29.3.10

Cai Sang Zi

O céu escurece, começa a ventar e cai a chuva,
Levando embora o calor sufocante
Ela arruma no estojo a flauta de bambu
Antes de se maquiar diante do espelho.

A seda púrpura do seu penhoar é tão fina
Que se pode entrever sua pele, lisa e perfumada.
Sorrindo, ela diz: amor, esta noite,
Atrás da cortina de gaze, fresca será nossa cama.

Li Qingzhao
(trad. Sérgio Capparelli)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

28.3.10

Desconcerto

Ao descascar a palavra esperança
encontrei polpa de maçã
e caroço de pedra.

Ao descascar a palavra amor
achei pele de pêssego
e carne de cinza.

Ao descascar a palavra verdade,
encheu as minhas mãos
e ao chegar à minha boca não existia.

Josefina Plá

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27.3.10

Epitáfio

O aroma de rosas velhas e tabaco
Faz-me regressar.
Há quase vinte anos
Que não nos vemos
E a nossa desapegada paixão continua.

Foi isto que me deixaste:
A mão, entreaberta, imóvel
Sobre uma colcha verde.
O bastante para erguer
Alguns poemas melancólicos.

Se então eu te houvesse tocado
Um de nós podia ter sobrevivido.

Ian Hamilton
(trad. Nuno Vidal)

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26.3.10

Gitana

meus passos não te serão
leves
nem meus saltos
nem mesmo quando levito,
ou ergo as mãos, danço e canto
sem acompanhamento

pelo ângulo certo, porém,
verás meu coração nos abetos,
os pássaros rasgarem azuis
e amanhecerem os meus beijos
vermelhos

Adrianna Coelho

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25.3.10

Corpo

Percorre-me as veias
o uníssono afinado das vozes vividas:
- profundos silêncios
marcados com ferros de dor
e amargura.

No teu corpo o frio de um dia ausente.

Paula Raposo

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

24.3.10

Vaso de barro

Não estou pronta
Sou um ser inacabado
Vaso de barro
Peça de escultura em reparo
Nas mãos do oleiro, moldado

O que sei de mim
é o que recolho
das lamas do meu manguezal
O que desconheço
está imerso nas areias amarronzadas
do meu íntimo abissal

A imagem no espelho
fita-me atônita
clama por uma resposta
uma palavra tônica
um gesto, um simples rito
Nada acontece
Apenas o cavernoso silencio permanece

Úrsula Avner

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

23.3.10

Nua em versos

Não me encontre nua
na madrugada
procurando poesia

Não me olhe agora
que estou inebriada
por palavras e fotos

Não toque no meu ventre...

Posso parir
Mil versos...

Dafne Stamato

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

22.3.10

Encontro

há um banco de praça vazio
calcificado em meu peito
desde a adolescência

no banco de espera
há marcas de minha silhueta estagnada

porque esperar é
moer futuros
causar espantos
examinar sementes

mas nessa trama de pomares enredados
eu sou o fruto que vinga de repente
fruto de vime talhado

pois o amor mordeu-me bem na anca
e o banco de praça em meu peito
desde então vive lotado.

Iara Maria Carvalho

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

21.3.10

Sizígia

o céu insiste
nessas cores de maçã
mordida
depois me anoitece
e me despe das luas
em três de minhas
fases

do meu olhar tardio
cheias e vazantes
se derramam
como preces

Adrianna Coelho

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20.3.10

Outono

Hei de partir antes dos ventos altos.
Nos braços levo uma escrita tardia
com cheiro a frutos secos em terraços.
Grinaldas de lilases no olhar.
Nos ombros o matiz bordado nas florestas
pelas mulheres magníficas do verão.

Encurtados aqui os trabalhos do sol
soltarei os gritos de pobres e de bichos
contra a insânia maior que a invernia.

De pronto partirei que um outro povo
aguarda o tempo novo além do capricórnio.

Licínia Quitério

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19.3.10

Condicionantes

Se eu não fosse essa pessoa
cheia de pântanos,
seria nuvem

Se eu não fosse essa
coisa estranha
seria um espelho voltado para o mar

Se eu não fosse eu
assim, cheia de medos e escuros
seria uma lacuna
só pra deixar você entrar

Sheyla Azevedo

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18.3.10

Abracei meus silêncios
como o mar (en)revolve as conchas em seu corpo profundo e extenso.

Entre pérolas e borboletas traço meus segredos,
ora escancarados,
ora (nas entrelinhas) presos.

Espaços vazios em mim falam mais que milhares de palavras.

Quando a poesia dança entre meus dedos,
outro som algum se torna audível.

Palavras saltam da alma, do ventre, do peito...
Do que é ou não crível.

Desatam-se os nós.

As pérolas cintilam e as borboletas, serenas, migram...
(de um canto a outro do meu ser)

Úrsula Avner

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

17.3.10

Assim

Eu te amo
de um amar antigo
- sabor de antigamente
no velho caderno das lembranças -

Eu te amo assim,
de um amar
antigo,
intocado,
abstrato,
indizível,
atemporal.

Assim.

Mila Ramos

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16.3.10

Devaneio

carrego nos ombros cansaço
e
vontade de ter asas
em vez de braços
e
quando me atrevo
tudo falo no silêncio da minha voz
e
nas palavras dos meus atos

Márcia Kastrup Rehen

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15.3.10

Passado com passas

o abraço dobrado
e o bom passadio
de passas no arroz
era a vida dos dois
lareira no frio
praias no verão e
a vida passando
como o ferro passa
e o trem já passou

depois do passado
em que a história acontece
ficou só presente
onde nada mais passa

o presente é um roteiro

que nem começou

Adelaide Amorim

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14.3.10

Vista-se de Poesia

Procuro a poesia certa,
como uma roupa na medida exata,
para vestir a minha alma nua.

Byafra

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13.3.10

O piano

Decifra-me.
Se me queres,
tenta-me.
Há portas que estão
apenas aparentemente
fechadas. Abre-as.
Uma delas dá acesso a
uma sala e dentro dela
há um piano. Entra.
E toca-me.
Se teus dedos produzirem
música, terás
me aprendido.

Nalú Nogueira

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12.3.10

Tempo trançado

atrás da porta do armário
numa sacola de camurça
ruça
deixo ficar os dias
que se recusam a virar passado

as pétalas e
as cartas sem resposta
um dia se esfarelam sem aviso
mas há desejos de longa duração
amores refugados
e algumas alegrias
dessas que os poetas antigos
chamavam peregrinas
que não se quer esquecer

quem disse que só temos
o presente?
ou dito de outro modo
talvez nosso presente seja
exatamente
uma sacola velha de camurça

Adelaide Amorim

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11.3.10

Quão doces podem ser as notas planetárias.
Arias que retinem o pulsar dos cimos

A terra cala.
O céu fala.
O ar é azul distante.
Nas extremidades - silêncio.

Há um tempo em que se escuta
a floração dos pessegueiros
Ouve-se as flores rosadas se
Transformando em fruto.
Seiva estala.
Fruto e flor a destilar sentido.

Lambo-te nesta néctar oloroso.

Pausas breves em alvoradas inconclusas
Estão sendo geradas
Para a harmonia flores-ser,

Ritmo incessante,
Amor.

Ruth M. Dutra

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10.3.10

Cansaço

Hoje estou pequena demais.
Cansa-me a casa, o quarto, a rudeza do dia.
Tudo é vidro estilhaçado junto à janela.
Pesa-me a alma.

Pesa-me tanto que me torno impossível de um ato de carinho.
Não quero mais esse rosto de tantos anos.
Também não quero a maturidade de quem já sabe o que fazer com quadros antigos.

Quero a criança que fui tão constrangida.
Quero o colo de minha mãe para deitar-me como a primeira vez.
Quero a leveza das coisas pra poder respirar e pular as janelas, inclusive as que dão aos abismos.

Eu não sou uma flor.
Sou uma mulher com muitos espinhos.

Jeanne Araújo

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

9.3.10

Florir das acácias

É no florir das acácias
que mora a alegria
das estátuas nuas.

Habitantes de jardins celestes
de árvores desfolhadas.

Corpos de pedra
- doados ao vento e ao tempo -
de sorriso lavado pela chuva
cansada de cair.

Olhos cegos na esperança
de ver acácias florir.

Maripa

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

8.3.10

Espelho de mulher

Atravessa
o outro lado
sem príncipe,
nem consorte.
Apreende
a vida,
luta, briga,
e a devolve
sem suporte.
É nascente
refletida
de dores,
amores
e glórias.
Amadurecida,
pura-mente
sorridente,
que com
ou sem sorte,
aprendeu
por si só ser
mais forte.

Christina M. Herrmann

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7.3.10

Abraço...

Vontade daquele abraço
que aconchega
que conforta,
que liberta, ao mesmo instante
em que me prende entre os braços...

Vontade daquele laço
que apaixona,
que enternece,
e que faz meu coração
voar livre, em descompasso...

Vontade daquele abraço
unindo as nossas metades:
O teu corpo
no meu corpo
a um passo da vontade.

Saudades daquele abraço...

Helena Chiarello de Araujo

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6.3.10

A música

Arrasta-me por vezes como um mar, a música!
Rumo à minha estrela,
Sob o éter mais vasto ou um tecto de bruma,
Eu levanto a vela;

Com o peito prá frente e os pulmões inchados
Como rija tela,
Escalo a crista das ondas logo amontoadas
Que a noite me vela;

Sinto vibrar em mim as inúmeras paixões
De uma nau sofrendo;
O vento, a tempestade e as suas convulsões

Sobre o abismo imenso
Embalam-me. Outras vezes é a calma, esse espelho
Do meu desespero!

Charles Baudelaire

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5.3.10

A solidão faz caber em mim tantas pessoas desiguais
que me transformo em intermináveis mosaicos,
a alma em caleidoscópio.

Devo ser forte para os outros e pra um outro sou frágil.

E quando finalmente estou só, cato os cacos, com os olhos
perdidos como se a vida não me pertencesse
e eu fosse o palco dos outros.

Esse vazio coabitado é o eco da vivência alheia.

Sigo assim, meio pano de chão, com tantas pegadas a
varar a madrugada.

Cristina Gebran

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4.3.10

Deixa-me...

Deixa-me sentar ao teu colo a ver passar
O rio...
Deixa-me assim estar sem pensar
No vazio...
Abraça-me apenas
E eu não sentirei mais frio...

Deixa-me sonhar que é amor
Aquilo que te vejo no olhar...
E deixa-me assim estar
(tão longe de casa, dos mimos, e da esperança...)
No aconchego do abraço
Que tens para me dar.

BlueShell

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3.3.10

outro tempo

foi num tempo outro.
quando os olhos não sabiam ler além da alma.
muito além da pele.

foi num tempo de palavras ditas com a boca à boca da noite.
quando os dedos (estes) não conheciam canetas e teclas.
e não podiam apagar os quilometros percorridos pelas mãos.

foi no tempo em que não se despedia o amor por carta,
porque despedida não havia,
esperava-se chegar a morte para recomeçar o mesmo amor.
de sempre em outra vida.

um tempo que não é de agora, tão diferente de tudo e de mim.
destas mãos acostumadas às letras e à distância dos olhos.
à desimportância da boca.

outro tempo:
tão longe e tão perto de mim
e do recomeço do amor.

mariza lourenço

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2.3.10

Paixão

estou no mais alto
da pura manhã

o meu coração é uma lágrima enorme
um frágil astro
que procura na linha dos teus lábios
o despertar generoso
dos solstícios
o alegre andamento
das estações

e quando desces a montanha do teu sono
e ficas tão nua da noite

eu
eu só sou
o sereno rio que passa
e que numa paixão de luz
te leva
ao azul infinito do mar

Gil T. Sousa

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1.3.10

Um aniversário

Meu coração é um pássaro cantante
Cujo ninho é um rebento orvalhado;
Meu coração é uma macieira
Vergando o tronco de frutos pesado;
Meu coração é um búzio irisado
Vogando na corrente com langor;
Meu coração mais que tudo se alegra
Porque a meus braços chegou meu amor.

Dai-me um dossel tingido de cor roxa;
De seda debruada de mil folhos;
Bordai nele romãs, pombos alados,
Pavões com caudas de mais de cem olhos;
Ornai-o de uvas, de rubis e prata,
Folhas douradas, pomares em flor;
Porque hoje é dia que nasce minha vida,
Hoje a meus braços chegou meu amor.

Christina Georgina Rossetti

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